Bom Dia

Carne Fraca leva risco à 2ª pauta exportadora do Tocantins

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Ministro Blairo Maggi (2º à dir.) e cúpula do Ministério da Agricultura durante coletiva sobre a Carne Fraca

A Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, que desarticulou uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários que emitiam certificados sanitários sem fiscalização em troca de propina, pode gerar um problema de uma gravidade que o País, entre memes e piadas diversas, como é próprio da cultura do brasileiro, parece que ainda não se apercebeu.

A forma espetaculosa, visando os holofotes e horário nobre da mídia, e a precipitação desta em busca de audiência não levaram em consideração o risco de prejuízos sem precedentes para a economia nacional, ao atingir, sem os devidos cuidados, um setor que tem contribuído significativamente para o País. Isso num momento em que começam a surgir os primeiros indicadores econômicos positivos depois de 22 meses de números negativos, que produziram mais de 12 milhões de desempregados.

A questão não é a operação em si, nem o combate aos maus elementos dos setores público e privado, mas a forma, os exageros e a falta de critérios técnicos para entender o setor, o que levou à generalização, alegrando os principais concorrentes do Brasil no mercado internacional de carnes, como Estados Unidos e Austrália.

No Tocantins, a carne é a segunda principal pauta exportadora — só perde para a soja. O Estado vende para países como Rússia, Egito, China (Hong Kong), Irã, Iraque, Argélia, Emirados Árabes, Líbia e Venezuela. São cerca de 50 mil quilos enviados anualmente para o exterior, que rendem mais de US$ 160 milhões. Além disso, estamos falando de uma cadeia produtiva, não apenas de frigoríficos. Incluem-se nessa cadeia o comércio de defensivos, vacinas, sementes, arames, maquinários e veículos diversos, açougues, restaurantes, enfim, uma infinidade de produtos e serviços, que geram milhares de empregos aos tocantinenses e milhões aos brasileiros.

Assim, não dá para fazer o estardalhaço que se viu na sexta-feira, 17, colocando em risco investimentos de bilhões de dólares realizados ao longo de décadas, atingindo a credibilidade de um produto nacional que é referência no mercado externo, que chega a 150 países, por causa da irresponsabilidade de pouquíssimas empresas e alguns maus servidores, diante de uma grande maioria de comprovada seriedade e responsabilidade com o País.

Quem diz isso, inclusive, é o auditor fiscal federal agropecuário Daniel Gouvêa Teixeira, responsável pelas denúncias que resultaram na Operação Carne Fraca. Ao G1, ele disse que, apesar das irregularidades que apontou, é errôneo generalizar que a carne vendida no Brasil é ruim. "Não adianta pensarmos que toda a carne vendida no Brasil é ruim, que toda a fiscalização é corrupta, porque isso é mentira. Nosso produto é muito bom e é por isso que somos destaque na exportação. Não vamos criar algo que não existe.”

Agora, depois de toda pirotecnia e da mídia dada a ficções vendidas como verdades, vem as explicações. A primeira é que quando os bandidos falavam em uso do papelão, não se referiam a misturar esse material na carne, um dos absurdos ditos na sexta. O que se falava era sobre a embalagem. Mais: não há nenhum problema na mistura da cabeça do porco em linguiça, nas proporções estabelecidas, nem na utilização da salmonella e ácido ascórbico, que é uma vitamina C, se respeitados os padrões fixados. Ou seja, o uso desses produtos precisa de uma profunda averiguação antes de se afirmar que há alguma irregularidade. Além disso, veja: o Brasil tem 4.837 frigoríficos sujeitos à fiscalização e só 21 estão sob investigação.

O País já enfrentou crises complicadíssimas por causa da febre aftosa e da brucelose, por exemplo, que geraram até por alguns períodos restrições à carne nacional. Contudo, a questão sempre foi tratada com discrição, cuidados com a saúde do consumidor e estratégias de combate que levaram à superação das doenças, sem que a credibilidade do mercado brasileiro de carnes fosse abalada. Porque tudo foi feito com responsabilidade e comprometimento com o País.

Era isso que se esperava no caso dessa operação. Que os maus empresários e servidores sejam combatidos e punidos com todo o rigor, que a saúde do brasileiro seja priorizada, mas é preciso preservar a imagem do melhor produto do Brasil, nossa carne. Qualidade que vai do campo aos frigoríficos, passando por um sistema de fiscalização reconhecido internacionalmente.

Porém, como a carne é fraca, tudo isso foi ignorado e parece que a ânsia por holofotes falou mais alto que os interesses maiores do País.

CT, Palmas, 20 de março de 2017.

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Cleber Toledo

É jornalista desde 1992, com passagens por jornais em Paraná, São Paulo e Tocantins. Fundador do site Cleber Toledo.
ct@clebertoledo.com.br
(Foto CT: Ademir dos Anjos)

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